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REVISTA #01 · Vídeo-ensaio · Religião

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O ateu
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Por que Charles Murray passou a levar Deus a sério

Ateu encontra Deus101:06:45

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Por décadas, Charles Murray foi o que ele próprio chama de “agnóstico casual” — um sujeito que, formado em Harvard, absorveu a ideia de que pessoas inteligentes já haviam deixado a religião para trás. Em entrevista ao programa Uncommon Knowledge, da Hoover Institution, apresentado por Peter Robinson, Murray discutiu seu livro mais recente, Taking Religion Seriously, e a jornada intelectual que o levou de cético convicto a alguém que hoje acredita viver “num universo tornado significativo pelo amor e pela graça”. 

Um tom novo, vindo do “trovejador”

Robinson observou que o livro contrasta com a obra anterior de Murray — Losing Ground, The Bell Curve, Coming Apart —, marcada por audácia e autoridade. Desta vez, o texto soa como “uma longa carta a um amigo”: caloroso, modesto, quase constrangido. Murray explica que a mudança de tom vem de reconhecer que, em religião, ele é um amador diante de um oceano de erudição.

This is a book by a guy who has no natural talent for this but who had come to realize there is something there that I wanted to tap into. 

Central em sua tese é a ideia de “percepção espiritual” — uma capacidade que, como a musicalidade ou a percepção de cores, se distribui numa curva. Murray se coloca no extremo baixo: “se você expressasse minha percepção espiritual numa métrica de QI, seria 75, 80”. 

O ponto de partida: a epifania de Katherine

A virada começou não com Murray, mas com sua esposa, Katherine, após o nascimento da filha Anna, em 1985. Ela percebeu que amava a bebê “muito mais do que a evolução exigia” — um amor que a apontava vagamente para Deus e a levou a buscar uma tradição religiosa. 

A partir daí, Murray descreve uma série de “empurrõezinhos”: a estranha elegância com que a matemática descreve a realidade física, e a pergunta que o incomodava — por que existe algo em vez de nada? Para ele, os cosmólogos “ignoram um milagre inicial e explicam todo o resto”. 

A evidência decisiva: a consciência fora do cérebro

O argumento mais poderoso para Murray, porém, veio dos fenômenos ligados à consciência: experiências de quase-morte e, sobretudo, a “lucidez terminal” — casos documentados de pacientes com demência avançada que, horas antes de morrer, recobram plenamente a lucidez, reconhecem parentes e conversam. 

Evidence that consciousness can exist independently of the brain needs to be taken more seriously than the scientific establishment has been willing to do. If I am not just a brain in a body, what am I? 

Esse ponto lhe rendeu uma réplica pública de Steven Pinker, no Wall Street Journal, sob o título “O caso não científico de Charles Murray para a alma”. Murray, que diz admirar Pinker, retruca que o colega não enfrentou a evidência de fato: “vocês têm que olhar para a evidência. Não dá para simplesmente assumir que é tudo fantasia e alucinação”. 

Levando o cristianismo a sério: o namoro com a história

A segunda metade da conversa trata das Escrituras. Murray se contrapõe às “histórias revisionistas” dominantes nas escolas de teologia, que tratam os Evangelhos como um “telefone sem fio” espalhado por 3.000 milhas do Império Romano. Ele reúne indícios de que os textos foram compostos cedo — talvez apenas 20 ou 30 anos após a crucificação. 

Entre os argumentos que mais o impressionaram:

  • Mary e Martha: dois relatos independentes — um em Lucas, outro em João, evangelhos sem fonte comum — retratam as mesmas duas mulheres com personalidades tão consistentes que parecem testemunho de quem realmente as conheceu. 
  • Nomes judaicos palestinos: o estudioso Richard Bauckham mostrou que a frequência dos nomes nos Evangelhos coincide com a da Palestina do primeiro século — não com a do resto do Império. Alguém inventando em Roma dificilmente acertaria. 
  • O fim de Atos: o livro termina com Paulo vivo e pregando em Roma, sem mencionar seu martírio, ocorrido anos depois. Para Murray, a explicação mais simples é que o texto foi escrito antes da morte de Paulo. “Seria como escrever uma biografia de Abraham Lincoln e deixar de fora o Teatro Ford.” 

O Sudário de Turim e a ressurreição

Sobre a ressurreição, Murray argumenta que as “respostas fáceis” — como a de que os discípulos roubaram o corpo — não se sustentam, já que praticamente todos morreram sob tortura sem jamais renegar o relato. 

É aqui que ele se arrisca no terreno do Sudário de Turim. Testes de cientistas de Los Alamos e de grandes universidades, em 1978, não conseguiram explicar como a imagem se formou: não é pigmento, não tem direção de pincelada, e a coloração penetra apenas dois mícrons na fibra. A datação por carbono, argumenta, teria usado um trecho não original do tecido.

 

We understand what the image is. We haven’t even a plausible hypothesis for how it was created.

Murray é cuidadoso: não pede que ninguém acredite por causa do sudário, mas sustenta que não se pode descartá-lo como “algo nebuloso e reconfortante”. 

Um zeitgeist em transformação

A entrevista também aborda o clima intelectual. Se em meados dos anos 2000 Richard Dawkins e Christopher Hitchens eram “rock stars” do ateísmo agressivo, hoje intelectuais públicos como Ross Douthat, David Brooks, Arthur Brooks, Ayaan Hirsi Ali e Niall Ferguson se declaram religiosos. Ainda que a frequência às igrejas caia, há, segundo Murray, um interesse renovado pela religião entre pensadores — algo impensável 20 anos atrás. 

Um peregrino ainda a caminho

Ao encerrar, Murray mantém a honestidade que atravessa todo o livro. Ele diz jamais ter recebido “o dom da fé” e se compara a “um menino com o nariz pressionado contra a janela, olhando uma festa da qual não pode participar”. Mesmo assim, sente ter recebido perdão — a graça de Deus, diz, “tornou-se real para mim”. 

My haphazard pilgrimage has already led me to believe that I live in a universe made meaningful by love and grace. That’s a lot. 

Seu conselho final a um jovem de Iowa indo para Harvard hoje resume o espírito da conversa — parte provocação, parte sabedoria: “Não vá para Harvard.” E, mais a sério: cerque-se de gente diversa e não deixe o zeitgeist decidir por você. 

Créditos

YouTube: Uncommon Knowledge

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